Padre Robson afirma durante reunião: “Sou o chefe da quadrilha”

O Padre Robson de Oliveira Pereira, de 47 anos, ex-reitor do Santuário Basílica de Trindade (GO) e investigado pela polícia por supostos desvios de dinheiro fruto da doação de fiéis, admitiu, em áudio gravado por ele, que participava de esquema para burlar contratos e tinha conhecimento do risco de ser preso pela polícia. “Sou o chefe da quadrilha”, afirma o padre, em um trecho da gravação.

O padre Robson fez a gravação durante reunião com advogados. O material foi divulgado pelo Jornal da Record, na quarta-feira (24). O Ministério Público do Estado de Goiás (MPGO) apreendeu o material gravado pelo padre.

Está em análise pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), novo pedido de prisão preventiva contra o padre Robson e mais quatro pessoas, por corrupção ativa. Seis meses após a suspensão de investigação criminal contra o padre Robson, nova solicitação foi apresentada pela Polícia Federal (PF), na última quarta-feira (17).

O religioso e a equipe jurídica dele discutem, durante a reunião, maneiras de camuflar a ilegalidade de contratos de compras feitas em nome de terceiros pela Associação Filhos do Pai Eterno (Afipe), presidida pelo padre até ele ser afastado da direção, após o MPGO deflagrar a Operação Vendilhões, em agosto do ano passado.

Durante a reunião, o padre Robson e sua equipe discutem sobre a possibilidade dos contratos serem alvo de investigação, em razão da dificuldade em explicar a relação da associação com negócios e investimentos imobiliários.

Advogada (nome não divulgado): Da representação nos negócios de investimentos na área imobiliária. Isso é muito ruim.

Advogado Klaus Marques: Quer dizer, eu estou assumindo que eles eram seus representantes nos negócios e investimentos na área imobiliária.

Advogada: e rádios.

Padre Robson: Isso não é bom.

Advogada: De jeito nenhum. Isso é a pior coisa que o senhor pode fazer.

Alessandra (funcionária da Afipe): Isso aqui é péssimo também.

Investimentos na área imobiliária, tendo em vista tudo que, de fato, todo mundo sabe que eles fizeram, foi o quê? Um roubo, né?

Padre Robson: O povo tem essa ideia, né? (…)

Alessandra: Está oficializando, está oficializando.

Padre Robson: (…) Eu estou dando legitimidade para uma coisa ilegítima, porque eu considero que foi estelionato aquilo lá. Os caras lá já falavam: olha, você vai passar, por fora, para mim, tanto. Eu, de bobão… complicado isso aqui. Não está bom, não. Isso aqui é a mesma coisa de estar assinando um mandado de prisão.

Durante a conversa o religioso revela que suspeitava de ser alvo de uma operação policial e que ele poderia ir preso.

Padre Robson: Ô, gente. Lá no inquérito policial, basta eu apresentar um contrato de parceria contratual.

Klaus Marques: padre, assim, eu vou pedir desculpas, mas é [sic] ilógico umas coisas aqui.

Padre Robson: Ô, gente. O meu medo nessas coisas aí chama-se… apuração dos fatos. Quando for apurar fatos, olhando nossa contabilidade, olhando nossa contabilidade do Júnior, do Gleison, vão ver que eles deram outra destinação aos valores, que não bate com datas e nem com nenhum tipo de… não tem jeito, gente.

Klaus Marques: Isso aqui é até perigoso ficar num computador.

Padre Robson: Eu estou dizendo é o seguinte. Eu não posso ter isso aqui no meu computador. Eu troco a placa desse “trem” aqui loguinho.

Klaus Marques: Se apreende esse computador… Olha esse tanto de contrato feito, mas não assinado.

Padre Robson: Contrato feito e tudo mais, né, gente? Eu estou enfiando a Afipe em um problema sério.

Na reunião que durou quase uma hora, uma pessoa diz ter lido o resultado da possível investigação.

Funcionária da Afipe: Vai prender o senhor.

O padre Robson admite em outro momento que seria o “chefe da quadrilha” e mostra medo de ser preso.

Padre Robson: Deixa um delegado meio doido começar a fazer pergunta pesada. Aí, gente, eu vou falar para vocês uma coisa. Isso aí é crime organizado.

Klaus Marques: É crime organizado, e o senhor é o chefe.

Padre Robson: E eu sou o chefe da quadrilha.

O padre Robson estava sendo investigado, na época, por suposto desvio de dinheiro fruto da doação de fiéis. As quantias eram entregues à Afipe. O religioso era presidente da entidade e responsável por administrar cerca de R$ 2 bilhões recebidos para a construção do novo Santuário Basílica de Trindade, segundo informações cedidas MPGO.

Entretanto, o dinheiro foi usado em possíveis aplicações financeiras, compras de fazenda e imóveis de alto luxo. Apesar da investigação, o Superior Tribunal de Justiça manteve trancados, em maio, o inquérito policial e a ação criminal contra o padre.

O ministro Olindo Menezes deu o entendimento que o compartilhamento de dados do religioso foi ilegalmente utilizado pelo MPGO dá início a operação. O TJGO seguiu o mesmo entendimento.

Respostas dos citados:

O advogado Klaus Marques afirmou que desconhece os fatos mencionados e afirmou que a Afipe sempre foi pautada pela legalidade, ressaltando que agiu conforme o que estabelece o Estatuto da Advocacia.

A Afipe informou que nenhuma pessoa citada na matéria tem qualquer relação com a entidade.

O advogado Cleber Lopes disse que ainda não há decisão sobre a solicitação feita pela Polícia Federal, se referindo ao novo pedido de prisão preventiva contra padre Robson.

O STJ informou que “não divulga informações sobre ações originárias em segredo de Justiça, as quais estão sob o comando dos respectivos relatores, sob pena de prejuízo ao andamento das investigações”.

Da redação do Acontece na Bahia

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